Da Pretensão Religiosa – Parte 1

Em nossa sociedade latina, a grande maioria das pessoas tem a religião como algo presente desde o início de suas vidas. Não me refiro à presença de Deus, mas sim a uma série de ritos e idéias estabelecidos por alguma pessoa ou conjunto de pessoas em algum momento histórico.

Quase todas as religiões têm a pretensão de serem as únicas corretas, o que me parece coerente, em princípio. A partir do momento em que você segue o catolicismo, não pode aceitar que o espiritismo esteja correto também. Confesso que durante muito tempo tive a visão religiosa pretensiosa compartilhada pela maioria dos seguidores de igrejas protestantes, mas essa visão não foi forte o suficiente para resistir à leitura e ao estudo de outras culturas.

Em visita às ruínas da civilização inca em Sacsayhuaman e Machu Picchu, fiquei absolutamente atônita diante do nível da engenharia praticada pelos incas naquele tempo, assim como com a utilização dos conhecimentos astronômicos no planejamento das semeaduras, colheitas etc. Eles possuíam espécies de “laboratórios” para desenvolvimento de técnicas agrícolas, canalizavam água, planejavam cidades e desviavam cursos de rios de acordo com suas necessidades. Ou seja, eram uma civilização com alto nível intelectual.

E também tinham sua própria religião. Segundo sua mitologia, durante muito tempo os homens viviam em total estado de desordem. Então o Sol mandou um filho e uma filha para que ensinassem boas coisas aos homens (tanto morais quanto práticas, como plantar, tecer etc) e organizassem a sociedade. Então esse filho tornou-se o primeiro Inca (imperador), e sua irmã virou sua esposa, dando origem a uma família real com um toque sagrado, já que eles descenderiam diretamente do Sol. Ainda hoje, mesmo após o domínio espanhol, aquelas populações ainda mantêm a prática de diversos elementos de sua religião original, como o culto à Mãe Terra.

Considerando que os incas não eram “bárbaros” (o que muitas vezes é usado para desqualificar a cultura de outros povos, como os africanos e os nativos brasileiros), que elementos temos para considerar a religião deles menos válida que qualquer outra? Do ponto de vista bíblico católico/protestante, os incas não convertidos ao cristianismo estão todos no inferno, assim como todas as outras pessoas não convertidas.

Acreditar nisso não é muita pretensão?

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A prática do ócio livre era o ideal de vários filósofos antigos. Onde nossas reflexões nos levarão?
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