Do preconceito racial e do “pré-conceito estatístico”

Um dos grandes clichês que escutamos desde crianças é que “não existe racismo no Brasil”. Que o Brasil é um caldeirão de raças, blábláblá, o-branco-o-negro-e-o-índio-vivendo-em-harmonia, que essa fusão dá a característica de “alegria” que marca o povo brasileiro…

Não discordo inteiramente disso. Penso inclusive que raríssimas pessoas no Brasil não suportariam a convivência social com um negro pelo simples fato de ele ser negro, como aconteceu nos Estados Unidos e na África do Sul, por exemplo. Temos aqui grupos racistas que às vezes resolvem se manifestar, mas felizmente isso é raro.

Penso que o “brasileiro-padrão” (categoria que inclui também os próprios negros) não sofre de preconceito racial puro e simples, mas de algo que poderíamos chamar de “pré-conceito estatístico”. O brasileiro-padrão vê que a grande maioria dos pobres são negros, e vê poucos negros com uma situação econômica/social privilegiada. Vemos muito mais negros em reportagens associadas ao crime e à pobreza, por exemplo, do que em reportagens sobre empresários de sucesso. Assim, se forma e se renova a cada dia nas mentes de brasileiros-padrão o conceito de que “negro é pobre”.

Assim, quando um brasileiro-padrão conhece um negro que até então não fazia parte de suas relações e sobre o qual ele não tem nenhuma referência, ele automaticamente, com base na estatística que ajudou a formar seu conceito de que “negro é pobre”, pensa que esse negro também é pobre e dispensa a ele o tratamento que a sociedade infelizmente costuma dar aos menos favorecidos. Se ele por acaso chegar a saber que esse negro tem uma boa condição econômica o tratamento certamente mudará bastante, como sei por muitas experiências próprias.

Esse foi um dos motivos pelos quais o infeliz comercial da Caixa Econômica Federal onde nosso glorioso Machado de Assis foi embranquecido me deixou revoltada. Penso que a sociedade só deixará para trás a fase do “pré-conceito estatístico” quando começarmos a expor exaustivamente pessoas que ajudem a derrubar essa imagem. É fundamental destacarmos os negros escritores, empresários, ministros do STF, protagonistas de novelas fora de papéis de escrava ou de objeto sexual, médicos brilhantes… Certamente é um processo que exigirá algum tempo para provocar uma mudança na visão da sociedade, mas me parece o único caminho para que essa mudança seja real e duradoura.

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A prática do ócio livre era o ideal de vários filósofos antigos. Onde nossas reflexões nos levarão?
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