Da “responsabilidade racial”

Sempre tive a impressão, conforme lia sobre o processo de abolição da escravidão no Brasil, que esse processo se baseou muito mais em sentimentos de caridade do que de justiça. Penso que muitos dos brancos envolvidos naquela época com a campanha abolicionista tinham um sentimento parecido com os que hoje têm essas associações de defensores de animais, que no fundo apenas estão tratando de exercer sua “gentebonice” com seres que pensam ser inferiores e necessitados de sua proteção. É um ato motivado mais pelo egoísmo, para sentir-se bem consigo mesmo, do que propriamente um ato de amor e justiça. Claro que deveria haver pessoas que realmente acreditavam na igualdade racial, mas acho que muitos não eram assim.

A visão do negro como um pobre coitadinho é reforçada diariamente por defensores de cotas raciais, que acham que um negro pelo simples fato de ser negro não tem condições de disputar em condições de igualdade com os não negros. Penso que se as cotas fossem sociais seria justíssimo, mas raciais não. Isso deveria ter sido feito no dia 14/05/1888, depois do fim da festa de comemoração da Lei Áurea, mas agora não é mais o momento. Um negro pobre é mais incapaz que um branco pobre? Desde quando?

O que deveria ser reforçado, no meu entendimento, seria a visibilidade de negros “bem sucedidos”, e que esses negros tivessem a noção de sua responsabilidade diante de sua raça e das futuras gerações. Mais do que ficar levantando bandeiras duvidosas, os negros deveriam se esforçar para serem cidadãos exemplares. Os melhores em suas profissões, os mais brilhantes em seus estudos. Onde você estiver, seja exemplo. Séculos de preconceito racial não serão jamais destruídos com campanhas de publicidade governamental ou com leis que proíbam manifestações racistas; a desvinculação das qualidades negativas associadas à raça (preguiça, incapacidade, burrice, desonestidade etc) somente acontecerá com a associação de novas imagens e idéias aos negros.

E isso não é um processo institucional, é pessoal. É uma guerrilha. Cada negro é uma célula dessa guerrilha, dividindo a responsabilidade de trabalhar para desconstruir a herança de séculos de uma História repleta de injustiças, mudando a mentalidade dos que nos cercam através da ferramenta mais poderosa de todas: o próprio exemplo.

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