Do platonismo amoroso e do quanto ele atrapalha minha vida. Ou não.

Como já ficou bastante claro em várias postagens, não sou exatamente um case de sucesso no que se refere (momento Dilma) às questões sentimentais. Pelo menos segundo os parâmetros da maioria das pessoas. E uma das coisas que penso que mais me atrapalha é a tendência ao platonismo amoroso. Antigamente também o sebastianismo amoroso me atrapalhava, mas penso que agora pelo menos isso passou.

Enfim, voltando ao platonismo. Sempre achei que a vida é muito mais divertida na minha cabeça do que na realidade. Idealizar alguém, se imaginar em um plano em que as vontades dos dois convirjam para um lugar bom, de harmonia, de sensações boas, em que haja verdade, entendimento… Esse sim é um mix de sentimentos que torna a vida mais bacana. E enquanto vou pensando, as coisas vão atingindo um nível de realismo tal que às vezes, com o passar do tempo, não sei se imaginei, sonhei ou vivi realmente algo.

Mas isso atrapalha demais a minha “vida convencional”… Como vivo em um mundo muito legal dentro de mim, acabo esquecendo o que está ao meu redor. E quando vejo passo meses sem qualquer interação mais profunda, sem prestar atenção a coisas que poderiam não ser tão legais quanto as que eu penso, mas que pelo menos seriam concretas. Sinceramente, às vezes não sei se isso é realmente ruim. No longo prazo estaremos todos mortos mesmo. Quem sabe até no curto prazo…

Deixo aqui um parágrafo de um dos livros que me tornaram uma amante platônica e sebastianista (não sei se isso é uma expressão, mas enfim, é uma referência àqueles que acreditavam que o rei D. Sebastião voltaria a Portugal). Direto de “As pupilas do Senhor Reitor” (um dos livros mais marcantes que já li), Júlio Dinis, o Dostoievski lusitano, fala:

“Os caracteres concentrados como o de Margarida alimentam-se ordinariamente de uma idéia fixa…  – quantas vezes de uma ilusão? – que  forma o segredo inviolável da sua existência inteira. Abre-lhes ela as portas de um mundo imaginário, para onde se refugiam dos embates do mundo real, que impressionam dolorosamente a sua delicada sensibilidade. Quando os encontramos sós, estes melancólicos devaneadores, acreditemos que lhes povoam a solidão formas invisíveis, criadas à poderosa evocação da sua fantasia; o silêncio em que o virmos cair, dissimula-lhes os misteriosos diálogos na linguagem desconhecida e intraduzível desse fantástico mundo.  É uma singular loucura procurar distraí-los, chamando-os à consideração das coisas reais. A mais doce consolação, a mais festiva alegria daquelas almas, é aquilo mesmo que se nos afigura tristeza.

Deixem-nos assim. Não queiram erguer-lhes a fronte que involuntariamente se inclina, não tentem iluminar-lhes com sorrisos a fisionomia, sobre a qual se derrama uma severa gravidade; não se esforcem por lhes tirar dos lábios comprimidos uma palavra qualquer, o fogo da vida, que parece tê-los abandonado, deixou somente a superfície, para mais intenso se lhes concentrar no coração.”

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A prática do ócio livre era o ideal de vários filósofos antigos. Onde nossas reflexões nos levarão?
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