Do sebastianismo amoroso

A história de Portugal é um assunto que sempre me interessou muito. Acho fascinante o processo que levou aquele pequeno pedacinho de terra a conquistar terras então desconhecidas, e como isso influenciou o espírito do povo português. A música, o temperamento do povo, a comida, a literatura, enfim, tudo me encanta. E um dos mitos mais marcantes da história portuguesa é o do esperado retorno do Rei D. Sebastião, o Desejado.

Resumindo: D. Sebastião era rei de Portugal, não tinha herdeiros e resolveu lutar contra os mouros no norte da África (eles nunca se cansavam disso). Então após a batalha de Alcácer-Quibir, o rei desapareceu. Não encontraram o corpo, o que fez surgir a lenda de que ele não estaria morto, e que retornaria em uma manhã com nevoeiro para salvar Portugal (alguma semelhança com a lenda do Rei Artur?). O resultado de sua morte foi Portugal cair nas mãos da Espanha, após um breve reinado do seu tio-avô, que era Cardeal. Para os portugueses, cair nas mãos dos espanhóis, seus inimigos históricos, era um pesadelo, e isso ajudou a alimentar o mito do retorno de D. Sebastião, crença essa que passou a se chamar sebastianismo, que teve entre seus seguidores o ilustre Padre Antonio Vieira e, bizarramente, Antonio Conselheiro.

E no que consiste esse conceito aplicado às relações amorosas? É crer que, mesmo depois que tudo acabou, ele retornará. É nos piores momentos da vida ter um raio de esperança de que aquele ser vai nos resgatar do sofrimento, do desencanto ou do tédio. Dos dias sem novidade, dos anos sem brilho. É crer contra todas as possibilidades, esperar por um milagre. Isso nos ajuda a viver. Mesmo que no fundo saibamos que D. Sebastião esteja morto.

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A prática do ócio livre era o ideal de vários filósofos antigos. Onde nossas reflexões nos levarão?
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