Da supervalorização de Tiradentes

Estava assistindo a disputa entre Santos Dumont e Tiradentes em um episódio do programa “O maior brasileiro de todos os tempos”, quando me surgiu uma dúvida honesta: porque Tiradentes é tão valorizado, a ponto de merecer um feriado?

Durante o programa, são mostrados depoimentos de biógrafos, historiadores e populares sobre o personagem em questão, e no caso de Tiradentes não foi dito nada além de “o mártir da Inconfidência”, “ele não acusou ninguém”, “ele libertou o Brasil de Portugal”, “ele morreu pelo povo brasileiro”… Clichês, clichês e mais clichês.

Quanto a libertar o Brasil de Portugal, é um franco exagero. O Brasil só tornou-se independente em 1822, e isso foi feito por um membro da Casa de Bragança. A revolução foi um fracasso, nem chegou a se concretizar. A maioria dos participantes foi degredada e se acomodou no novo destino, e Tiradentes foi o único morto apenas porque era o mais pobre deles. Ele não assumiu para si toda a culpa sobre a rebelião: apenas não tinha influência ou dinheiro suficiente para ter sua pena comutada, como os demais tiveram.

E quanto a “morrer pelo povo brasileiro”: as causas da quase-rebelião foram econômicas, como a cobrança exagerada de impostos sobre a produção de ouro. Nada de nobre nisso ou, ao menos, nada de diferente de outras rebeliões, como a de Beckman, por exemplo, ou outras tantas que caracterizaram nossa história colonial.

Enfim, Tiradentes é produto da necessidade da República recém-nascida, após 1889, de criar um heroi. Aquele era um momento em que se precisava afastar a imagem dos herois ligados ao Império, como D. Pedro I, que proclamou a independência. Assim, se construiu a imagem do Tiradentes mártir abnegado que lutou pela independência do povo brasileiro, com representações bastante semelhantes às de Cristo…

Apenas besteiras. Precisamos revisitar nossa história e colocar os heróis de volta em seus lugares e desconstruir mitos de conveniência. Assim como Zumbi.

Mas isso fica para outro dia…

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A prática do ócio livre era o ideal de vários filósofos antigos. Onde nossas reflexões nos levarão?
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