Da história de Adèle H. – parte 2

Hoje revi pela enésima vez um dos meus filmes preferidos, “A história de Adèle H.”. Acabo sempre revendo esse clássico quando começo a gostar de alguém mais do que deveria, é bom para manter a higidez da mente. Realmente já perdi as contas de quantas vezes assisti a esse filme, mas em todas elas terminei igualmente chocada, ansiosa e revirando a internet atrás de dados novos sobre a história de Adèle e de Victor Hugo. E sempre alguma coisa nova salta aos meus olhos, algo em que eu não tinha reparado antes…

Dessa vez, me chamou a atenção a parte em que ela sai da casa de Mme Saunders e vai para um albergue, por não ter mais dinheiro para pagá-la. Ela está lá, em um sono meio delirante, e a pessoa na cama ao lado começa a revirar as folhas que estão dentro do baú que está sob a cama da Adèle. Ela sussurra enraivecida: “Não toque nisso! É o meu livro!”. Então ela vai escorregando para fora da cama, fora de si, e dorme abraçada no baú.

É interessante que ao longo do filme ela vai descontando as frustrações daquele amor obcecado na escrita, e a maneira como ela o faz vai mudando conforme seu estado mental vai piorando. No início são escritos românticos, sobre a natureza do amor, do casamento, enfim. Depois vai se revoltando com a submissão da mulher ao homem, com o seu relacionamento com o pai (pelo menos é isso que eu entendo do trecho em que ela escreve insistentemente que é “nascida de pai desconhecido”), ao mesmo tempo em que os delírios ficam mais e mais intensos, como quando ela começa a gritar que não suporta mais ver os vestidos da irmã morta na casa. Ela tenta justificar a sua vida, registrar suas impressões e sua leitura do mundo naquelas páginas. Tudo o que ela viu, viveu e entendeu está ali, por isso é tão importante conservar aquele livro. Penso que essa é a minha relação com a escrita também.

“Não toque nisso! É o meu blog!”

Anúncios

Sobre ociolivre

A prática do ócio livre era o ideal de vários filósofos antigos. Onde nossas reflexões nos levarão?
Esse post foi publicado em Alma gêma, Cinema, Literatura e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s