Da temporada na prisão

Mais uma vez, falta luz aqui em casa… Então bora escrever sobre novelas mexicanas à luz de velas!

Bem, outro elemento clássico nas novelas mexicanas é a temporada da mocinha na prisão. Claro que ela nunca é culpada; está sempre presa injustamente e, clichê dos clichês, assumiu uma culpa para livrar uma pessoa querida. Na prisão ela terá que enfrentar uma presa barra-pesada e/ou uma carcereira escrota, mas sempre terá uma amiguinha do bem.

Maria do Bairro, coitada, teve que encontrar Penélope na prisão e ser “monitorada” pela Rosenda, tudo isso para salvar o filho ingrato. Paulina Martins, para não macular a honra da irmã e da família Bracho, também passou sua temporada na cadeia, com direito a assédio sexual do diretor. A Maria de “A madrasta” começou a novela terminando de cumprir sua pena, também não merecida. Ah, e temos uma versão roots/old school da prisão: a Inquisição! Em “Alborada”, Lucero-Hipolita é acusada pelo Santo Ofício de adultério! Nada pode ser mais dramático do que isso!

Claro que sempre há um plot twist e as mocinhas, depois de sofrer, têm seu valor reconhecido por colegas, carcereiras e advogados bonitões. Senão não seria novela mexicana, não é?

Afinal, se eu quisesse ver realidade, assistiria o “Brasil Urgente”.

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De “O Tempo e o Vento” – Versão 2013

Quando começaram os boatos de que seria produzida uma versão de “O Tempo e o Vento” para o cinema, a primeira coisa que pensei foi: não vai dar certo. Como compactar “O Continente” (primeira parte da trilogia) inteiro em um filme? Como contar as histórias de Pedro Missioneiro, Ana Terra, Capitão Rodrigo, Bibiana, Bolívar, Luzia, Florêncio e Licurgo em duas ou três horas? Isso sem pensar nos personagens secundários que dão muita força à história, como Pedro Terra, Juvenal, o médico Carl Winter e o Fandango…

Quando fui ao cinema, fiquei profundamente decepcionada. A história estava completamente mutilada, aquele encontro entre o fantasma do Capitão Rodrigo e a Bibiana me pareceu completamente imbecil e a trilha sonora era péssima. Mas o pior foi o corte da história do Bolívar Cambará, que está no meu Top Five de crushes literárias. Fiquei absolutamente indignada! Só o que salvou o preço do ingresso foi o Thiago Lacerda, lindo e adequado como sempre, e a fotografia, que é realmente impecável.

Mantive as esperanças porque foi anunciado que seria televisionada uma visão estendida… e para minha surpresa, conseguiram mutilar ainda mais Ana Terra e o Capitão Rodrigo. O único acréscimo considerável foi a inclusão de uma versão de 10 minutos da história de “A Teiniaguá”. Muito curta, não deu para chegar a um 1% da profundidade dos personagens de Luzia e Bolívar… Só o que salvou essa versão foi a morte do Bolívar, muito fiel ao livro e lindamente interpretada.

Espero que, pelo menos, essa versão sirva para despertar o interesse das novas gerações pela obra. É uma leitura longa mas muito fluida, os personagens são densos e não idealizados… Enfim, corram para ler!

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De “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?”

Aproveitando as férias, resolvi saldar uma dívida com a dramaturgia brasileira e, finalmente, assistir a primeira versão de “Escrava Isaura”.

Minhas impressões sobre a novela merecem um post a parte, mas já digo que o que me fez gostar bem mais da Isaura da novela do que da Isaura do livro é o desejo de liberdade. Isaura da TV fala muito sobre a liberdade, sobre o absurdo da instituição da escravidão e, em certo capítulo, fala com muita intensidade (palmas para Lucélia Santos) sobre a carta de alforria. A cena é muito interessante, porque Lucélia conseguiu se transportar para aquela época e realmente dar a dimensão do valor desse documento, que faria com que um escravo deixasse de ser escravo, de ter um senhor, e poderia dispor sobre si mesmo… Uma coisa que para nós é um direito básico, em uma época não muito distante foi um sonho, que enfim foi realizado com o custo de muito sangue e muita luta.

Hoje não temos “senhores” (ao menos não oficialmente) e podemos dispor sobre nós mesmos. Temos liberdade. Sinto que devemos, então, repetir a pergunta do filosófico grupo Só Pra Contrariar: “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?”.

Farei o que tiver vontade? Ficarei presa a velhos conceitos?  Levarei uma vida baseada na segurança material e emocional? Arriscarei meu conforto (principalmente mental) pelo bem da coletividade? Não sei.

Mas sei que, a cada dia, tenho que dar valor à minha carta de alforria.

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Da Necessidade de Novos “Cautionary Tales”

Penso que a adolescência deve ter sido difícil desde o princípio dos tempos, mas me parece também que, hoje, os adolescentes têm bem menos limites do que em qualquer outro momento. Não há freios, muito pouco é proibido. Em parte pelo sentimento de culpa que os pais não conseguem evitar, já que na maioria dos lares pai e mãe trabalham fora, passam pouco tempo com os filhos e, no final do dia, não tem forças (físicas e emocionais) de impor um pouco de disciplina, que seria muito necessária para o crescimento saudável da prole.

Em parte também pela falta de religião, como já escrevi aqui. Não adianta: as pessoas precisam ter medo de algo maior.

E, na linha da “ausência de medo”, penso que precisamos com urgência de novos “cautionary tales”! Não encontro uma tradução adequada para nosso idioma; “contos de fada” não serve, porque esses já são a versão “suavizada” das histórias originais… me refiro aos contos originais, em que aqueles que desobedeciam a regra imposta no início da história invariavelmente se fodiam no final.

Estou pensando seriamente em, agora que estou em férias do mestrado (agora “só” fico no emprego, hehehe, chega de tripla jornada – casa, trabalho e mestrado), escrever cautionary tales da vida moderna. Será que dá?

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De Bento Coutinho

Penso que nunca mencionei isso aqui, mas sou completamente maluca pela história de “A muralha”, tanto a série quanto o livro. E hoje, lendo tranquilamente o segundo volume da biografia de Getúlio Vargas, escrita pelo sensacional Lira Neto, descobri que Bento Coutinho é um personagem real!

Sério, morri. Peço um desconto aos que já sabiam disso, mas confesso que nunca fui muito ligada na história de São Paulo… Lendo agora sobre os antecedentes da Revolução Constitucionalista, vi que a Guerra dos Emboabas e o episódio do Capão da Traição foram muito usados para motivar os paulistas a agir contra Getúlio. E lá Lira cita o nome de Bento do Amaral Coutinho! Corri para o Google e vi que também João Antunes é um personagem real, Brasil!!!

Ah, sei que é besteira, mas amo demais essas pequenas descobertas, ainda mais em um feriadinho que caiu em uma segunda-feira. Obrigada, Lira Neto!

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Da Imperatriz D. Leopoldina

Como já escrevi em diferentes oportunidades, personagens trágicos me atraem demais. Adèle Hugo e Manoela (a “noiva de Garibaldi”) fascinam-me com seus amores infelizes, mas outra mulher as supera em termos de sofrimento: a Imperatriz D. Leopoldina, esposa de D. Pedro I (um dia ainda criarei coragem para escrever sobre ele).

A cada livro que leio sobre eles, mais cresce minha admiração por D. Leopoldina. Era uma grande conhecedora de mineralogia, botânica e assuntos relacionados a então chamada “História Natural”. Tinha grande discernimento e coragem, sendo uma das principais responsáveis pela independência do Brasil, junto com José Bonifácio, estimulando D. Pedro a tomar a decisão de separar o Brasil de Portugal. Mãe dedicada aos filhos e profundamente fiel ao marido, aguentou estoicamente as constantes humilhações a que D. Pedro a submeteu após o início do romance com a Marquesa de Santos.

Era extremamente caridosa, ajudando muito os pobres do Rio de Janeiro, sendo a sua agonia acompanhada pelo povo com intenso sofrimento, extravasado durante seus funerais. Depois de sua morte, que o povo atribuiu aos maus-tratos de D. Pedro (incitado pela Marquesa de Santos), a popularidade do Imperador caiu vertiginosamente e nunca foi recuperada.

Dizem que amava muito o marido e por isso aguentou tudo o que passou… Penso que o amor, mais do que ao marido, era ao dever, como boa Habsburgo. Li no “D. Pedro II”, de José Murilo de Carvalho, uma frase que a representa muito, retirada de uma de suas cartas:

“Procuro a minha felicidade no cumprimento exato do dever e estudando muito.”

E outra, que li no “D. Pedro – O Rei-Imperador”, de Javier Moro:

“Sim, tenho coragem, porque seria inútil ter medo.”

Enfim, não entendo porque Leopoldina ocupa um papel tão pequeno na História ensinada nas escolas… É um personagem histórico encantador, que já me levou às lágrimas (literalmente) diversas vezes, e que merece ser estudada e conhecida por todos os apaixonados pela História do Brasil.

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Do “Alfaiate Voador”

Felicíssima porque o trimestre do mestrado encerrou na semana do feriadão, resolvi aproveitar a liberdade para colocar as leituras em dia… Eis que quando lia a edição desse mês da querida “Revista de História da Biblioteca Nacional”, fui atropelada pela história de Franz Reichelt, o “Alfaiate Voador”. Ali, em poucas palavras, contava-se a história do alfaiate austríaco que resolveu testar uma roupa que serviria como pára-quedas, e o tal teste foi feito na Torre Eiffel. O Alfaiate se atirou da Torre e, evidentemente, morreu. E o pior: isso foi filmado, e o vídeo está no Youtube. Quem quiser, pode assistir aqui:

Bizarro. Trágico. Triste. Aterrador. Mas o que levou esse homem a isso?

Pesquisando sobre o assunto, li que ele ficou obcecado com os feitos de outros caras que haviam voado de pára-quedas e planadores, e que ficava fazendo roupas e as testando em bonecos, que jogava do seu apartamento, que ficava no 5º andar de um prédio. Até que um dia ele pensou que o problema não eram os modelos, mas sim o fato de estar lançando os bonecos de uma altura muito baixa, e resolveu lançá-los da Torre Eiffel… Mas no dia, por algum motivo resolveu, em vez de lançar um boneco com a roupa, usá-la ele mesmo. E deu no que deu.

Me interessa muitíssimo entender o que aconteceu naquele exato momento em que ele resolveu mudar os planos. O que passou na sua cabeça? Alguém sugeriu isso? A visão do público o fez se sentir encorajado, pensar que, se tivesse êxito, seria uma consagração, e seu nome entraria na História? Sua esposa e seu filho estavam lá? Se sim, o que sentiu essa esposa vendo o marido vestir aquele traje bizarro? Será que ela tentou impedi-lo? Será que ela foi impedida de tentar impedi-lo? E o que ela pensou ao ver o marido despencando lá de cima? Será que ela fechou os olhos? Dizem que ele já chegou ao solo morto, mas quem saberá?

O melhor artigo em português sobre o assunto li aqui:

 http://lounge.obviousmag.org/proparoxitonas/2013/01/franz-o-alfaiate-voador.html

Enfim, mais um personagem histórico que merecia um livro…

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